«Quando veio do Ultramar, maltratava-me muito». A declaração é de Dolores Aveiro, mãe de Cristiano Ronaldo, numa entrevista concedida a Cristina Ferreira.
A revelação passou despercebida no meio de frases mais sumarentas. Mas a verdade está lá, foi dita. Dolores Aveiro foi vítima de violência doméstica, perpetrada pelo já falecido marido.
Dinis Aveiro, pai daquele que é o melhor jogador do Mundo, foi um dos milhares de homens portugueses que combateram na Guerra do Ultramar. Teria hoje 65 anos. Morreu em 2005, na sequência de problemas hepáticos agravados pelo alcoolismo. Tal como os milhares que regressaram vivos, Dinis Aveiro não voltou sem marcas. Não as físicas, mas as psicológicas. As que, como uma doença silenciosa, alastram devagar, corroem, destroem.
Os danos psicológicos provocados pelo combate militar, o stress pós-traumático, não afetaram só os que estiveram no palco de guerra. Afetaram famílias, descendentes. As marcas perduram até aos dias de hoje, no silêncio histórico, aqui e ali interrompido por filmes e documentários, no silêncio familiar, dos que encerraram as memórias na ânsia que elas desaparecessem.
No regresso a um país que já não reconheciam e que, na ânsia de se libertar das amarras da ditadura e viver depressa (e bem) uma recém-conquistada liberdade, se esqueceu deles, os ex-combatentes foram deixados à sua sorte e obrigados a viver não só com estigma mas com transtornos psicológicos que a maioria nunca tratou. Por falta de informação, por falta de dinheiro, porque pura e simplesmente aceitaram os pesadelos, os ataques de pânico, o embotamento emocional, como parte do destino.
É certo que nas décadas de 70 e 80 pouco se falava das consequências psiquiátricas do combate militar e só muito recentemente se começou a dar atenção aos cuidados de saúde mental para este tipo de transtornos. No entanto, e como diz o povo, o mal está feito. E urge que nos questionemos se, enquanto país, fizemos o suficiente para proteger, cuidar e honrar os que, contra a vontade, perderam parte da juventude numa guerra que estava, desde o início, condenada. E o 'fazer' tem de ser muito mais conjuntural do que o patético teto máximo de 150 euros anuais do Suplemento Especial de Pensão pago atualmente pela Segurança Social. Uma esmola humilhante num país em que banqueiros e antigos políticos auferem reformas insultuosas quando comparadas com as da média.
O acervo histórico, a memória dos indivíduos vai sendo construída por ex-combatentes como António Pires, que lutou em Moçambique entre 1971 e 1973 e construiu o site «Dos Veteranos da Guerra do Ultramar» (http://ultramar.terraweb.biz)
Abel Marques Correia, de Fajões. Está sepultado em Catete, Angola. Armindo da Silva Pereira, de Santiago de Riba Ul. Está sepultado em Catete. Joaquim Jesus da Silva, de Cucujães. Está sepultado em Sassa, Angola. José Maria da Silva Soares, de Ossela. Está sepultado em Mueda, Moçambique. Manuel de Pinho, de Madaíl. Está sepultado em Catete. Manuel José Ferreira, de Santiago de Riba-Ul, dado como desaparecido. Mário de Oliveira Lopes, de Pindelo, está sepultado em Catete.
Era uma tarefa titânica do ponto de vista financeiro mas... que bonito seria trazê-los de volta a Oliveira de Azeméis.
Dúvidas e reclamações? Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

