Por essa estrada #8

Há dias estava a trabalhar em Gotemburgo e vi-me iluminado por uma luz branca, limpa, típica do aproximar do Pólo.

Há dias estava a trabalhar em Gotemburgo e vi-me iluminado por uma luz branca, limpa, típica do aproximar do Pólo.

Gosto muito das cidades nórdicas banhadas pelo Báltico: têm a organização típica de gente que vive rodeada de frio e a magia do mar, das viagens, de pessoas que vão e, muitas vezes, não sabem se voltam.

É uma mistura de seriedade e aventura, de rigor e, ao mesmo tempo, um espírito livre e crítico, típico de quem busca algo mais além.

Gotemburgo tem isso tudo: desde os jardins herméticos, quase renascentistas, à vida comunitária que nasce com a escuridão do inverno e se alimenta com o sol de verão, a sã organização desportiva e, com toda a mundivivência, a arquitectura e os costumes junto ao porto.

As cidades com porto têm esta capacidade de abertura: ao mundo e dos seus costumes. Hamburgo, por exemplo!

Hamburgo é uma cidade fantástica, no verdadeiro termo de cidade e de fantástico. Geograficamente não fica longe de Gotemburgo e não fica atrás de outras cidades mundiais, misturando a sua pomposa idade com a arquitectura moderna, dando-lhe uma robustez, uma vida, que nem todas se podem gabar. Uma cidade de piratas que se reproduz a cada dia!

A vista sobre o porto, muito industrial, muito mecânico, marítimo, como qualquer grande plataforma deve ser, ao entardecer, com um sol avermelhado a reflectir nos edifícios de tijolo e vidro, dá-lhe uma atmosfera única, sendo difícil de igualar e de imaginar tão a norte.

E depois há St.Pauli. St.Pauli era uma zona de prostituição e que se transformou um pouco. É um rua onde há de tudo o que se possa imaginar por e pela noite dentro: restaurantes, bares com musica ao vivo, bares de strip, bares de alterne, cinemas com filmes para adultos, sexshops, galerias de arte com temas eróticos, uma instalação em aço em memória dos Beatles, etc. etc..

O que seria de Nova Iorque se não tivesse sido a porta de entrada do mundo na América?!

O que teria sido de nós se Lisboa não tivesse sido a porta de saída da Europa para o mundo?!

Lisboa vive essa luz de gente que vai e vem: de Portugal para a Capital, da Capital para o mundo.

Estava em Gotemburgo quando recebi a notícia que tinha morrido Júlio Pomar ( e António Arnaut).

Pomar bebia essa luz de Lisboa, cheia de estórias e marialvices, que tantos tão bem escreveram e que o pintor - que se dizia “perfeito” como na construção civil! – coloriu. Vivia o mundo e retratava o que a imaginação ditava.

Para mim, falar de Pomar é regressar à infância, é ver o circo descer à cidade, é ver a alegoria, é a tourada.

É uma luz, uma alegria. “Tudo isto é fado?”.

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