O treinador da Oliveirense iniciou a carreira aos 19 anos, na Académica, e foi evoluindo até ao campeonato angolano, onde se habituou a vencer. No regresso a Portugal pensava parar e descansar, mas Hélder Albergaria chamou-o. Ainda bem. Eis o treinador que levou a Oliveirense ao título, sem espinhas.
Como é que surgiu a sua vinda para a Oliveirense?
Eu tinha conhecimento com o Hélder Albergaria quando vim fazer estágio com a equipa do libulo, de Angola, a Portugal, e realizámos dois jogos de treino com a Oliveirense. Nunca pensei que um dia viesse a treinar este clube. Quando o ano passado o José Ricardo vai para o Benfica o Hélder telefonou-me. Eu não pensava treinar, tinha vindo de Angola,queria descansar um pouco, mas acabei por aceitar.
O que pensa quando lhe dizem que é o melhor treinador português da atualidade?
O que interessa não é o que eu penso mas sim o que os jogadores que trabalham comigo pensam. Eu faço o meu melhor. Certamente não sou o pior. Dou o máximo de mim. Procuro aplicar aquilo que acho que é o melhor de mim enquanto treinador: a capacidade de comunicação com os jogadores, deixá-los confortáveis para jogar, procurar que tenham prazer em fazê-lo. Apostar na questão defensiva, ter muita criatividade em termos ofensivos. Mas eu não sou melhor agora porque ganhamos o campeonato do que era antes. A mim não é isso que me move.
Quando chegou viu na equipa potencial para chegar ao título?
Eu no primeiro treino disse aos jogadores que estava ali para ajudá-los a serem campeões. Até porque eu vinha habituado a ganhar. Falei logo com o Balseiro, que conhecia desde os tempos do Académica, pedi muito ao Arnette para ficar, mas vi que os atletas que cá estavam tinham muito valor, apesar de a Oliveirense ter um orçamento, por exemplo, 30 por cento inferior ao do Benfica. Ainda assim também pude chamar o Coleman, com quem tinha trabalhado em Angola, e que sabia como se ganham coisas. Também foi importante o regresso do Ellisor, a meio da época, embora a equipa já estivesse muito bem.
Se calhar as pessoas pensavam que sou um pouco louco, mas disse logo, muito cedo (à terceira jornada), numa entrevista que dei, que queria vencer o campeonato.
Seguiu-se muito trabalho, com muito compromisso de todas as partes, e criou-se uma onda de entusiasmo à volta da equipa e as coisas foram surgindo naturalmente.
Em que altura percebe que é mesmo possível chegar ao título?
Nós desde o início estivemos muito fortes. Andámos sempre atrás do Benfica, na fase regular.
Era importante vencer a fase regular...
Sim. Percebi logo que jogar os play off com o fator casa a nosso favor era muito importante. Por isso dizia semanalmente aos jogadores que era importante não deixar fugir o Benfica na classificação e esperar uma escorregadela. Houve um jogo em que podíamos ter passado para a frente: na Luz, já na segunda fase, estávamos a ganhar por 18 pontos à entrada do último período, mas o Benfica conseguiu dar a volta e vencer. No início de semana, quando treinamos outra vez juntos, olhei para a cara dos jogadores e percebi que nada ia mudar nada. A confiança mantinha-se. Continuamos a trabalhar e na segunda volta recebemos o Benfica, ganhámos e passámos para a frente do campeonato. Creio que nos últimos 25 jogos nós ganhámos 24. Isso diz muito de estado anímico da equipa.
Uma das nossas vantagens é que a equipa sempre foi mentalmente muito forte. Eu estava habituado a estar em Angola em muitas finais. Aí também é preciso ter experiência para saber lidar com estes momentos. Os jogadores estavam tranquilos nestes jogos. Tranquilos e unidos, juntamente com o clube, na pessoa de Hélder Albergaria, que não me pediu nada mais do que fazer um bom campeonato e tentar manter o clube ao nível a que vinha estando. Nunca me pediu para ser campeão. Eu trouxe uma ambição diferente.
Como sentiram o apoio dos oliveirenses nesta temporada?
O entusiasmo da cidade foi importante. Não é normal o que aconteceu. Nos tempos em que a Oliveirense esteve nas decisões tinha uma equipa completamente profissional. Agora não é o caso, Cinco dos jogadores trabalham. Mas isso não nos serve de desculpas para nada. Lutar contra equipas completamente profissionais, como o Porto e o Benfica, com condições financeiras inferiores... Não se ganha por ter dinheiro, ganha-se por ter competência. Claro que em tudo, para se vencer, é preciso ter tempo, talento e dinheiro. Nós não tínhamos muito dinheiro, mas conseguimos, com boas decisões ao nível da construção do plantel ter talento suficiente para irmos ganhando tempo para nos construirmos para vencer.
Cheguei agora, cheguei este ano, mas penso que a pessoa que tem mais mérito neste nosso sucesso é o Hélder Albergaria. Ele pegou na equipa quando o Basquete profissional acabou, nunca se desculpou com nada, foi caminhando, teve resiliência para ir aguentando os momentos e crescendo. A única coisa que eu trouxe foi aquele aviso: “Olha, está na hora”.

