Por essa estrada #9

Há duas coisas que eu – e provavelmente todas as pessoas que lêem esta crónica!

Há duas coisas que eu – e provavelmente todas as pessoas que lêem esta crónica! – tenho a certeza: que estou vivo e que um dia irei morrer. Quando, onde, como e porquê, não consigo responder; nem sei se é algo importante. 

Penso que a intensidade e a quantidade de marcos que provam a nossa existência enquanto seres humanos é muito mais importante do que o tempo que habitamos a Terra.

Por isso, falar da morte - A Morte de Ivan Ilitch» de Lev Tolstoi, é um livro que fala da morte de um ser ou honra a sua vida?! – é um tema intemporal, quanto intemporal for a humanidade.

Há dias houve um debate e uma decisão na Assembleia da República sobre a eutanásia, onde ganhou o “não”.

Foi um debate rico e a votação legítima; quer ganhasse o “sim”, quer ganhasse o “não”. Por isso é com tristeza que vejo actores políticos a usarem a frase feita que “não houve discussão suficiente” ou “os deputados não foram mandatados nas últimas eleições para tais matérias”, como argumento para não se debater/ legislar/ votar uma matéria do interesse da população. É uma falácia e é uma tentativa de soundbyte. Curiosidade das curiosidades é que este argumento só conta para legalização! 

No dia a seguir ao “não”, vi as listas dos deputados que votaram contra e a favor. E estranhamente, ao invés dos Senhores Deputados que votaram “não” se vangloriarem do seu acto e da sua vitória, fecharam-se em trincheiras e acusaram os jornais da publicação de tal infame lista. Será medo? Ganharam, já não se queima ninguém em fogueiras ou numas caves secretas no frio siberiano!

Uma vez mais o PSD, em matérias sensíveis e que a consciência de cada um deverá estar acima da estratégia política, deu liberdade de voto na sua bancada. Rui Rio, por educação e formação, sabe respeitar o indivíduo e percebe claramente que há factores históricos, culturais e religiosos que têm um peso muito significativo na decisão sobre a vida ou a morte. Essa liberdade dada aos deputados neste tipo de matérias é o que distingue o PSD do PS e da sua ética republicana e laica.

Pena é que a bancada do PSD, muitas vezes mais preocupada em achincalhar o líder do que a tentar perceber que foi eleita em nome do PSD para honrar os valores do partido e a estratégia da direcção tendo em vista uma melhoria da condição de vida de todos os portugueses, não tenha percebido o que significa essa liberdade. É a liberdade de votar em consciência, sem ter a necessidade de dar justificação a ninguém sobre o sentido de voto. Não é a liberdade de poder atacar o líder, de ir atrás de Passos e Cavaco e de quem não percebeu durante estes anos todos que o PSD é um partido Social Democrata e não um partido Democrata Cristão, de direita, conservador ou lá que derivas lhe queiram dar. Sá Carneiro trouxe os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja para o partido mas, felizmente, os dogmas ficaram à porta.

Tenho imenso respeito por todos aqueles que lutam por mais um segundo de vida, seja em que condição for.

E de igual forma respeito todos aqueles que se cansaram de viver: por doença, por desgosto, por perda de faculdades, por questões sfinanceiras, por dor, etc. etc..

A sociedade pela qual eu luto, prevê a liberdade de cada cidadão. E cada cidadão deverá ter o direito a escolher entre a vida e a morte e deverá ter a assistência necessária por parte do Estado para, em consciência ou em acordo com alguém mandatado para o fazer, tomar essa decisão.

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