Gincana

Há não muito tempo as estradas portuguesas eram conhecidas pelo seu traçado sinuoso. Circulava a anedota de que tal se devia à equipa responsável pela construção, liderada por um engenheiro inglês.

Há não muito tempo as estradas portuguesas eram conhecidas pelo seu traçado sinuoso. Circulava a anedota de que tal se devia à equipa responsável pela construção, liderada por um engenheiro inglês que, questionado sobre se os trabalhos deveriam ser empreendidos de determinada forma, responderia “yes”, que os trabalhadores lusitanos interpretariam como “em s” e daí a justificação do seu traçado ziguezagueante. A explicação do traçado fundava-se, portanto, num erro de comunicação.

O traçado dos arruamentos oliveirenses não difere muito deste conceito. Os arruamentos são estreitos, sinuosos e cumprem uma lógica incompreensível. Poder-se-á argumentar com as idiossincrasias locais: o relevo acidentado e as edificações antigas. No entanto, mesmo em zonas onde as edificações ou arruamentos são recentes o conceito persiste. Limito-me a citar, para não abusar da paciência do leitor, a Rua Bento Landureza (na Farrapa): arruamento recente, com edificações, pavimento e passeios novos. No entanto, as edificações têm uma implantação desordenada e nem as recentes obras de requalificação atenuaram ou mitigaram – como deviam - o traçado sinuoso e os inerentes riscos de quem ali circula ou estaciona.

A incompreensibilidade da racionalidade que preside aos critérios por que é definido o ordenamento urbano repete-se na construção ou demolição do edificado: edifício em altura contíguo a moradia; edificação face à rua seguida de outra recuada; fábrica ao lado de habitação, a esmagadora maioria das vias nas zonas urbanas destituídas de passeio e, quando os há, seguem a mesma lógica (ou falta dela). O mesmo sucede na demolição de habitações antigas com reconhecida tradição ou eventual valor histórico.

A dificuldade de comunicação entre o engenheiro e os trabalhadores lusos estará também na origem da postura de trânsito: alguém habilitado a conduzir em Oliveira de Azeméis não terá dificuldade em o fazer em qualquer outro ponto do globo. Quem reconhece uma qualquer lógica à forma como flui o trânsito, quem nunca sentiu um acréscimo de adrenalina nos cruzamentos de Santo António ou no do Pingo Doce da Farrapa, quem percebe o porquê da profusão de separadores de estrada em determinadas zonas da cidade, é digno merecedor de um crédito de pontos na carta de condução.

Há algum tempo questionei um empreiteiro por que desenvolvia a construção de toda uma urbanização à face de uma rua estreita. O meu interlocutor surpreendido com tão inusitada questão lançou uma resposta desarmante: sendo a rua de sentido único não havia necessidade de a alargar! Pois claro… e assim continuará nos próximos cem anos. Uma rua estreita, de um só sentido e sem passeios - porque feita a pensar no imediato.

A anedota do engenheiro inglês e do trabalhador português perde toda a piada quando percebemos que os constrangimentos descritos revestem um cariz sistémico e estrutural. Os exemplos elencados derivam de uma falta de planeamento inadmissível. Até ao momento, no nosso concelho, apenas foi aprovado e publicado em Diário da República o Plano Diretor Municipal em 2013 e os Planos de Urbanização existentes limitam-se às Zonas industriais de Loureiro, Nogueira do Cravo/Pindelo e Costa Má. Sim, é difícil acreditar mas estes planos existem mesmo… O planeamento em Oliveira de Azeméis merece uma profunda reflexão. Não é possível deixar a lógica do planeamento à mercê dos gostos ou bom senso de cada um. Sem um planeamento sério, o nosso concelho, vilas e cidade arriscam-se a hipotecar o nosso próprio futuro.

Não me conformo a que a circulação no concelho se assemelhe à experiência de competir numa prova de desporto motorizado – esta é, sem dúvida, uma experiência interessante que deve resultar de uma opção individual e não uma fatalidade com que nos confrontamos diariamente. Os problemas identificados (ainda) têm solução. Mas é preciso determinação. Existirá?

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