Por essa estrada #7

Muitas pessoas, depois de verem e sentirem ao estado em que chegou o Estado, perguntam como tudo isto foi possível. Foi por nossa culpa.

Portugal, nos últimos dias, foi assaltado por uma onda em torno de José Sócrates: do envolvimento de Manuel Pinho no saco azul do BES surgiram mensagens desconexas e perplexas - diria eu! - de pessoas que descobriram, 13 anos depois do ex-PM ter ganho a primeira Maioria Absoluta para o PS, o tipo de pessoa que ele é.

Não é segredo para nenhum oliveirense que eu adoro política: desde a sua análise ao seu exercício. É algo que me fascina quando é feita com regras tão simples como igualdade, liberdade e respeito pelo seu semelhante, em prol do bem comum.

Por isso, desde que José Sócrates perdeu as eleições legislativas em 2011 que eu raramente falei do homem. Para mim não há união de poderes e o povo julgou Sócrates nas eleições.

A partir daí, se as suas decisões políticas forem consideradas lesivas para o Estado e forem provadas que foram de origem criminosa, que se cumpra a justiça. Caso contrário, o julgamento já foi feito nas urnas.

Mas até às legislativas de 2011, desde 2006 neste jornal, no blog O Meu Pé de Laranja, em artigos em meios online, tentei colocar a nu a política e a pessoa que são José Sócrates.

Os projectos do aeroporto da Ota, os aumentos da Função Pública, o aumento do IVA, a posição sobre a OPA da Sonae à PT, o aeroporto de Beja, o Magalhães, o Tratado de Lisboa; e por outro lado, a licenciatura, Cova da Beira, as casinhas, o Freeport, o processo Face Oculpa, a JP Sá Couto, a compra da TVI e o dinheiro do BCP, a pressão sobre os OCS, as escutas de Belém, o discurso de abertura do Congresso de Espinho.

Falei sobre tudo isso na altura devida, muitas vezes sozinho e criticado, por gente que agora rasga as vestes ao falar de Sócrates. Pessoas do meu partido que, para atacarem Ferreira Leite e subirem ao poder, tinham no modelo keynesiano de Sócrates, o grande aliado político.

Pessoas que atacaram Manuela Moura Guedes, José Manuel Fernandes, Felícia Cabrita, João Miguel Tavares, e muitos outros jornalistas, dizem-se, agora, espantados com tudo o que descobriram num espaço de duas semanas mas que era do domínio público quase desde o dia em que Sócrates tomou posse como Primeiro Ministro, em 2005.

Aliás, para mim, foi penoso ver a entrevista realizada pela SIC a Manuela Moura Guedes, conduzida por Pedro Lourinho, para falarem de Sócrates. Penoso porque numa profissão onde há tanto corporativismo, os primeiros a atacarem Moura Guedes, Felicia Cabrita, José Manuel Fernandes, a TVI e o Correio da Manhã, foram ( e são!), muitas vezes, os próprios colegas de profissão. Não deveria a entrevista a Moura Guedes ter começado com um pedido de desculpas por a SIC, na altura dos factos, ter assobiado para o lado quando já se sabia tanta coisa?!

Muitas pessoas, depois de verem e sentirem ao estado em que chegou o Estado, perguntam como tudo isto foi possível.

Foi por nossa culpa. Foi porque apesar do sistema português estar bem montado, um grupo de pessoas com ligações triplas à política, à economia e à justiça se juntaram para tomar conta do país e as pessoas, induzidas pela propaganda,  não pensaram.

No Padrinho III, Don Lucchesi explica que a economia é uma arma, e a política é o acto de premir o gatilho. Fomos todos atingidos.

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