Talvez estas palavras estejam completamente desatualizadas quando forem lidas por si, caro leitor. Talvez a tempestade já tenha passado, talvez tenha tudo acabado em bem, dado em nada. Talvez a culpa vá morrer solteira. Ou, num mundo justo, num país moderno, talvez Bruno de Carvalho se tenha já demitido e o Sporting esteja a dar os primeiros passos para se recompor, para se reerguer da tragédia.
Poderá pensar o caro leitor: «mas não há assuntos mais sérios sobre que escrever ?». É verdade que os há. Mas o futebol, neste país, como em tantos (sobretudo os do sul da Europa e da América do Sul), é a metáfora da vida coletiva. A forma como vivemos este desporto vai muito além do passatempo, do entretenimento. Uma fatia considerável da população faz depender os seus estados de alma semanais do que acontece ao sábado e ao domingo nos campos da bola. Uma vitória é uma semana em cheio; uma derrota é um carpir de desgraças... até à jornada seguinte.
Por isso, sim, temos de falar de futebol. E temos de falar de Bruno de Carvalho.
É-me incompreensível como é que uma instituição centenária como o Sporting (e, atenção, o meu clube é o do outro lado da Segunda Circular) se deixa enlamear desta forma. É absurdo que o chamado «clube dos betos» (e digo-o com todo o carinho, porque o sportinguista típico sempre teve aquela admirável altivez e classe) desça ao rating lixo. E é ainda mais surreal que os adeptos e sócios do Sporting patrocinem, ao longo de vários anos, uma liderança que não, não é forte nem tenaz. É apenas e só um caso clássico de bullying.
Bruno de Carvalho é, neste momento, um Nero prestes a mandar incendiar Roma. Um líder isolado, acossado por inimigos imaginários, que vê adversários até na própria sombra. Um homem com comportamentos ciclotímicos e imprevisíveis: um dia é virulento, outro dia é paternalista. Um dia é conciliador, outro dia é o catalisador de conflitos. Conviver mediaticamente com Bruno de Carvalho, nem que seja como telespectador, é extenuante. Conviver em ambiente laboral com Bruno de Carvalho deve ser uma tortura diária. Nem sequer consigo imaginar o que irá na cabeça de Bas Dost, o holandês goleador de Alvalade, agredido por fac-símile do seu presidente, mas de cara tapada e bastões nas mãos. O que pensará um cidadão de um país luterano, cartesiano, praticamente imune a estas coisas das paixões bipolares lusitanas? Terá medo, certamente. Quererá fazer as malas e fugir para casa. Quererá com certeza distância de tal inferno.
Os Brunos de Carvalho desta vida existem porque existe quem os legitime. Nas empresas, nos clubes, na igreja, na política, existem Brunos de Carvalho. Os, numa primeira aparência, fortes e imponentes líderes que escondem as suas fragilidades e incompetência por detrás da força, do discurso truculento, da coação, da ameaça, misturando comportamentos truculentos e agressivos com momentos pontuais de doçura, de paternalismo, de falsa irmandade. Existe no nosso inconsciente coletivo um apetite indizível por este tipo de líder. O chamado «líder carismático», do qual mais recente exemplo é o antigo primeiro-ministro José Sócrates, cujo comportamento de bully bem pudemos constatar nas imagens do interrogatório judicial da Operação Marquês.
Como se combatem os Brunos de Carvalho? Com exigência, com pragmatismo. E com desassombro.
Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

