A crónica passada foi sobre viagens; e ainda não consegui sair do registo. Certamente por ser primavera e por ver diariamente imagens de aventureiros de moto em Marrocos, na Turquia, no Afeganistão. Certamente por sentir saudades de viajar.
Há quem diga que para viajar é necessário morrer e ressuscitar para um mundo imaterial e de conhecimento; a partir daí fazer três, cinco, sete viagens; aquelas que o coração deixar, num caminho serpenteado por uma estrada qualquer perdida no meio do mundo, em que o sol ilumina a humanidade e é o guia salvador.
Já viajei pela terra, pela água, pelo ar, pelo fogo. Fisicamente falando. Já viajei por entre livros e descobri no passado o caminho para o futuro.
Viajar é aprender, é, como cantava Gonzaguinha “ Viver/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/
Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz”.
Em casa, sentado no sofá, desejo ser um eterno aprendiz e a minha mente vagueia pelos Andes.
Fui para o Peru com um desconhecido - hoje é dos meus melhores amigos – para descobrir o país do Andes, dos Incas, Machu Picchu.
Para se chegar a Machu Picchu não basta querer: é necessário transpor serras, rios, florestas e estepes. De carro, moto – nós fomos de moto! -, autocarro, comboio, para falar em tempos modernos; ou a pé, a cavalo ou burro, numa junta de bois ou outro meio de transporte de tempos idos, é algo que demora imenso tempo.
Lembro-me que a 3200 metros de altitude, com o motor frio, foi com dificuldade que começámos a progredir pelo empedrado cusquenho até fora da cidade. Pelo meio de um tráfego constante de velhos camiões, autocarros e carrinhas com turistas, fomos pela estrada asfaltada até Maras, com as montanhas cobertas de neve ao fundo. A 3900 metros já não sentia o frio e a 4315 também não sentia o ar; mas via o precipício lá em baixo! Nas aldeias não havia trânsito mas estavam cheias de perigos: galinhas, cães, porcos, burros e vacas. Para presépio só faltava o menino Jesus e nós éramos os romanos invasores!
A mesma ideia se coloca para sair de lá: há quem diga que os espanhóis chegaram a Machu Picchu e que, por alguma razão, já não saíram.
Machu Picchu, dado o seu isolamento, manteve características únicas e uma intocabilidade que lhe dão um mistério especial. E daí este ponto ter sido aquele que, ainda em Portugal, a preparar a aventura sul americana, eu e o Filipe colocamos como “ seja por onde for, temos que lá ir!”.
Por isso, o dia que subimos de Águas Calientes, foi algo especial porque não foi apenas subir a um monte com ruínas. Foi como uma iniciação dado todos os rituais que os Incas praticavam.
O nevoeiro era sebastiânico e, a cada pedra, um símbolo e um significado. Pedras com os pontos cardeais espelhados pela aldeia, fizeram que os Filhos do Sol soubessem construir as suas casas segundo a orientação do astro flamejante.
Entre simpáticos lamas e o ar húmido e repleto de sentimento de paz, templos construidos para rituais do sol, da fertilidade, da Patchamama. Pedaços de história por onde os raios esculpiram calor, luz e sabedoria.

