Por vezes olhamos a vida em perspectiva: o que fizemos de certo e errado neste percurso pelo qual somos o principal responsável, e onde uma pequena decisão em criança poderá tornar-se no grande sucesso da idade adulta.
Cruzar o deserto, árido, inóspito, com vegetação quase inexistente, aldeias perdidas no tempo, caras estranhas à nossa passagem, o sol a iluminar uma imensidão maior do que o que a vista consegue alcançar, é dos locais onde o tempo e o espaço, como uma grande abóbada ou um astro flamejante, propiciam a espiral do tempo da vida.
E por vezes há sons que me acompanham: músicas que trauteio no som abafado do capacete; a voz de casa que tem viajado comigo…
Uma vez, numa entrevista qualquer, o jornalista fez-me uma pergunta retórica: “ o que mais gosta de fazer na vida é competir?!”. À qual, timidamente e a medo, respondi que não; o que mais gosto é de pessoas, de as conhecer, de falar com elas, saber das suas vidas, das suas culturas. Quando começo a ter à vontade, conto piadas para ver até onde posso ir; como por exemplo, virar-me para um muçulmano e dizer que as tâmaras ficam mesmo boas com uma fatia de bacon frito ou que o kushari é excelente mas sabia mesmo bem acompanhado de um fininho bem tirado.
Por isso gosto de viajar, por isso gosto de comunicar – de trabalhar na LOBA, de fazer conferências, com os miúdos, nas escolas, ou as do Rotary -, por isso gosto de fazer corridas porque lá, do piloto ao mecânico, somos todos iguais, sem grandes diferenças, todos com o mesmo objectivo, fala-se e conhece-se meio mundo.
Por isso tenho fotografias com crianças em Moçambique, Egipto, Marrocos, Peru; com homens e mulheres de todo o mundo, em muitas terras. Pessoas das quais já não sei nada mas que, num dado momento, contaram-me uma estória que vai fazer parte da história da minha vida.
Já troquei cerveja e camisolas da Eni por dois dedos de conversa, artefactos por fotografias; na arte de regatear consegue-se vislumbrar a vida de cada pessoa atrás das expressões do rosto. Lembro-me – e a minha mãe conta-me – que aos seis anos, em Confolens, França, trocava brique-a-braque dos Jogos Olímpicos de Seul, por beijos, com coreanas com ar de boneca de porcelana!
Hoje, sentado na minha secretária, com vista para Oliveira de Azeméis, tenho os cheiros das florestas e dos desertos a entrarem-me pelas narinas. A adrenalina de planear, marcar, calcular toda uma viagem que vai daqui aos confins do mundo. Quantos quilómetros, onde há gasolina, que pneus levar. Ir e voltar por caminhos diferentes.
Tenho vontade de falar com patrocinadores, marcar entrevistas, agendar espaço para textos e fotos nas revistas. Filmar e fotografar!
Olho pela janela e imagino que cabe tudo numa mochila e que é possível abraçar o mundo, de punho enrolado por uma qualquer estrada serpenteada, entre a montanha e o precipício, com o mar ao fundo; ou as longas rectas por entre as dunas; ou pelos palmeirais que ladeiam os rios.
Olho pela janela, vejo o horizonte e tenho saudades de viajar. Tenho saudades da voz que me acompanha nas viagens.

