Volvida a agitação subsequente ao conhecimento público da impossibilidade de edificar um novo edifício dos Paços do Concelho na “Praça Maior” e após o saudável regresso à normalidade, torna-se oportuno debater o assunto objetiva e tranquilamente.
O tema é demasiado delicado para uma decisão apressada ou objeto de querelas político-partidárias. Exige-se prudência e serenidade! É evidente e consensual que o edifício que alberga atualmente os Paços do Concelho não reúne condições mínimas: a exiguidade do espaço implica o arrendamento adicional de edifícios que se multiplicam “como cogumelos” sem aparente racionalidade para o munícipe; com prejuízo na eficiência da prestação dos serviços municipais; onerando o orçamento municipal e criando dificuldades gestionárias. Parece também evidente que a opção pela localização do edifício não pode resumir-se a colmatar as necessidades atuais, mas acautelar e projetar o futuro. Qualquer projeto que não previna as necessidades das próximas cinco décadas não deve, sequer, ser equacionado. O investimento é demasiado avultado, exigindo-se, pois, uma ponderação muito refletida.
Assim, previamente à tomada de decisão, é imperativo que se reflita o conceito de cidade. Nas últimas décadas o concelho assistiu à corporificação de dois conceitos divergentes. Por um lado, a ideia de cidade alargada cujos limites se estendem muito para além da pequena e apertada malha urbana do centro antigo. Edifícios como a Escola Secundária Ferreira de Castro, Centro de Saúde, Quartel da GNR e Pólo da Universidade de Aveiro são disso exemplo.
Este conceito se, por um lado, assegurou a inexistência de estrangulamento nas suas acessibilidades e o potencial desenvolvimento futuro, descurou, por outro, o presente e o futuro próximo. O centro antigo da cidade perdeu os estudantes, as pessoas, o movimento. O concelho foi dotado de equipamentos modernos e inovadores, mas a cidade perdeu vida, ficou deserta, nua, mais pobre e triste.
Outro conceito de cidade definiu o limite da malha urbana existente como o local de eleição para edificação de novos equipamentos. Preservou-se o centro antigo mas optou-se pelo alargamento do centro da cidade. Assistiu-se, então, à construção da Biblioteca Municipal, Centro Lúdico, Piscinas Municipais, complexo desportivo e até à reabilitação do edifício que alberga atualmente a Escola Superior de Saúde Norte da Cruz Vermelha Portuguesa.
É precisamente este conceito que deve ser, agora, privilegiado no processo de tomada de decisão. Esta deve beneficiar de um alargamento da malha urbana nas suas faldas, mas não para além do limite destas. Deve beneficiar do surgimento de novas praças, novas centralidades, suficientemente próximas do centro antigo - promovendo o comércio e vida da cidade - mas privilegiar novos locais, com boas acessibilidades, locais de estacionamento, possibilidade de criação de novos arruamentos, absolutamente incompatíveis com as duas principais opções vindas a público: a da casa de Sequeira Monterroso ou o Mercado Municipal.
Aliás, a diferença entre estas duas ideias resume-se à distância geográfica de cerca de 50 metros que as separa… Na substância, são equivalentes. Qualquer destas opções assenta numa visão de cidade sem ambição, circunscrita ao centro antigo, impedindo o desenvolvimento da malha urbana, em suma, resolve as necessidades imediatas e aqui se esgota.
Nessa medida, devem ser incondicionalmente rejeitadas por precipitadas, desadequadas e condicionarem o futuro da cidade, do concelho e dos oliveirenses. Ainda que a opção sobre a sua implantação geográfica venha a incidir sobre a área de reabilitação urbana do centro da cidade, outras alternativas mais adequadas haverá. A recair sobre qualquer daquelas duas opções tornadas públicas, mais avisado seria abandonar, por ora, a ideia de dotar o concelho de um novo edifício dos Paços do Concelho e aguardar nova oportunidade, novas ideias, novos protagonistas.

