Bombordo é o lado esquerdo do sentido da navegação. Quando os navegadores portugueses exploravam a costa atlântica de África, do seu lado esquerdo ficava terra e ficam os portos seguros já conquistados.
Esse lado esquerdo das primeiras conquistas ficou, até hoje, como o lado bom, o bom bordo. Nesta primeira crónica de uma rúbrica quinzenal, importa dizer ao que venho e onde estou. Estou a bombordo e perspectivo o mundo do lado esquerdo. Quem não sabe onde está, nem para onde vai, dificilmente chega a lugar algum.
A política é como a navegação. Escolhe-se um barco, um grupo de marinheiros, define-se o rumo e navega-se para chegar a algum lugar. Nem sempre se chega, nem sempre se chega na hora certa. Muitas vezes enfrenta-se a tempestade, outras a bonomia do mar calmo.
É isto que define a política e que define cada um de nós quando discutimos política. Navegamos sempre para o nosso lugar ideal, que não deverá ser muito diferente para a maioria de nós. Navegamos é por mares diferentes, mas nunca nos devemos esquecer que o mundo é redondo e, no cúmulo, apesar do ruído, talvez cheguemos ao mesmo lugar.
Nos últimos anos temos assistido ao suceder de escândalos envolvendo políticos. A Operação Marquês, envolvendo José Sócrates talvez seja processo de maior dimensão. Mas temos a Operação Labirinto, envolvendo o ex-ministro Miguel Macedo e os Vistos Gold, o Caso BPN, envolvendo vários ex-ministros, ou a Operação Face Oculta envolvendo o ex-ministro Armando Vara. Como me dizia um cidadão um dia destes, a política é a melhor incubadora de empresas, até a sucata dá dinheiro.
A estes grandes escândalos, somamos o desgaste dos faits-divers diários. O mais recente envolve o secretário-geral do PSD, Barreiras Duarte, com supostas falsificações curriculares e suspeitas de ajudas de custo indevidas. Mas tivemos vários políticos envolvidos em escândalos de licenciaturas no tempo da Universidade Moderna, alguns bem perto de nós, e mesmo licenciaturas anuladas como a de Miguel Relvas. Bem perto de nós acompanhamos expectantes mais sem qualquer orgulho o processo Ajuste Secreto, envolvendo ex-autarcas locais.
Não podemos deixar que se confundam as coisas nem colocar tudo no mesmo saco. Há milhares de pessoas sérias que fazem política todos os dias, sem qualquer interesse. É tão disparatado como dizer que uma empresa ou uma fábrica são más porque há um trabalhador mau. Estes diversos casos não são nem fazem a política. Não nos deixemos enganar mediatismo dos casos. Por exemplo, a maioria das pessoas que participam nas eleições autárquicas nunca se envolveu na política. Maus marinheiros há em todo o lado, não é um problema dos barcos nem da navegação. Muito menos um problema de lados.
No tempo das descobertas também houve maus marinheiros. Se esse tempo fosse hoje, diríamos que a classe marinheira é corrupta e acabávamos com os descobrimentos para resolver o problema. Não teríamos descoberto o mundo nem construído um império. Não ficamos mais inteligentes por fazermos generalizações, só parecemos.

