«Até segunda-feira, se Deus quiser», frase dita pela jornalista Dina Aguiar na RTP3, motivou um micro-furacão com prazo de validade muito curto mas, ainda assim, matéria para refletirmos. Vamos por partes. A jornalista Dina Aguiar, que conduz o bloco noticioso da RTP3, Portugal em Direto, despediu-se dos telespectadores como sempre o fez. Com um «até amanhã, se Deus quiser». Que Deus? O dos católicos? O dos muçulmanos? Dos judeus? Jeová? Isso realmente interessa? Não.
Para a também jornalista Fernanda Câncio interessou, tanto que manifestou a sua indignação nas redes sociais (onde haveria de ser?), questionando se a RTP seria «a tv da paróquia». A frase completa foi qualquer coisa como «Portugal em directo, na rtpn [vamos aqui corrigir Câncio…. o canal chama-se RTP3 há já uns anos valentes], tem uma apresentadora [nova correção, Dina Aguiar é jornalista] que acha que pode despedir-se com um ‘até segunda-feira se deus quiser’. Isto é o quê, a tv da paróquia?».
A «tv da paróquia». Como apenas três palavrinhas revelam tanto. A paróquia, aqui, é a imagem do retrocesso, o sítio onde essa gentinha atrasada, o Portugal profundo, o ‘povo’ (gargarejar e cuspir depois de pronunciar tal alarvidade!), se junta para rezar com terços feitos de bolas de naftalina. O horror, essa gente que acredita em Deus. Essa mesma gente que (ainda) vê a RTP.
Da última vez que verifiquei o Artigo 41º da Constituição Portuguesa, ainda vivíamos num país com liberdade de religião. Cá está. «A liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável. » no primeiro ponto e, no segundo, «Ninguém pode ser perseguido, privado de direitos ou isento de obrigações ou deveres cívicos por causa das suas convicções ou prática religiosa.». Podemos também evocar o ponto 3. «Ninguém pode ser perguntado por qualquer autoridade acerca das suas convicções ou prática religiosa, salvo para recolha de dados estatísticos não individualmente identificáveis, nem ser prejudicado por se recusar a responder.»
Podemos também fazer uso do senso comum e avaliar o que Dina Aguiar disse como sendo apenas e só aquilo que é: uma expressão, uma forma de despedida. Ou talvez mais do que isso.
São estas pequenas coisas que aproximam um jornalista, um pivô, um apresentador, um comunicador, das pessoas. São estes elos de ligação (por muito que uma certa elite, isolada no seu castelo, queira recusar ver) que fazem com que a televisão generalista (RTP, SIC, TVI) ainda seja vista por uma média diária de 3,3 milhões de pessoas. Já tomar o povo por parvo, burro, limitado, é meio caminho andado para se cair em desgraça e no esquecimento.
Do jornalista ao padre, do cantor ao apresentador, do presidente da Junta ao presidente da República, inteligente é aquele que, sabendo subir ao povo e sentir-lhe o pulso, aprende com ele, mesmo que não deseje ser como ele. Essa sabedoria só se aprende com humildade, observação e o total abandono do ego.
Portugal é um país laico, é certo. É também um país maioritariamente católico. Mas é sobretudo um país onde a maioria está demasiado ocupada a ganhar o pão nosso de cada dia para se prender com polémicas estéreis e inconsequentes.
Até daqui a 15 dias. Se Deus quiser.
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