Há alguns dias atrás, passeando com um amigo que mora em Lisboa pelo Parque de La Salette e que se deliciou com o nosso parque, tendo tirado belas fotografias, olhou para uma das árvores que lá se encontra e disse: “ Olha uma tamareira! ” Disse-lhe em seguida: “ Não é uma palmeira? ” Ele esclareceu-me: “não, é uma tamareira, porque as folhas que caem da tamareira têm um cair diferente das folhas da palmeira ”. As folhas são grandes, podendo atingir de 3 a 6 metros de comprimento por 30 até 60 cm de largura na base. E lá aprendi uma coisa nova, tendo esse meu amigo, lembrado uma frase de origem árabe “quem planta tamareira não colhe tâmara”, pois a tamareira leva aproximadamente 100 anos para produzir frutos, ou seja, se considerarmos que plantamos a árvore aos 20 anos de idade, teríamos de viver 120 anos para colher as tâmaras.
onsiderei o provérbio esplêndido, porque dele se podem extrair nobres ensinamentos de linguagem e de sapiência. Hoje, a rapidez e a velocidade estão na ordem do dia. Quanto mais rápido melhor… Curiosamente em“ Elogio da Lentidão”, livro escrito por Lamberto Maffei, médico e cientista italiano, somos levados numa viagem pelo mundo fascinante do cérebro, aliando a neurociência à reflexão crítica sobre a cultura e a sociedade contemporânea.
Com Lamberto Maffei podemos perceber porque é que é importante pensar devagar e de que forma as novas tecnologias estão a transformar-nos, enquanto pessoas e enquanto sociedade. Lá diz o ditado popular “ depressa e bem, há pouco quem “.
Num mundo dominado pela velocidade e pelas maravilhas da tecnologia digital, estar a defender a máquina lenta do cérebro, será para aquele cientista uma batalha provavelmente perdida à partida. Pelo menos por enquanto… Aos 81 anos aquele médico e cientista italiano escreveu livros sobre o cérebro, publicou mais de 280 trabalhos em revistas científicas, contribuiu para o diagnóstico precoce de doenças do sistema nervoso e estudou formas de reactivar a plasticidade do cérebro. A par disso, esteve à frente das instituições mais importantes de Itália na sua área e recebeu inúmeros prémios e distinções na área da medicina.
Talvez daqui a 2.000 anos estejamos a falar deste ser humano, tal como ainda hoje falamos de Séneca (Século IV a.C.), cujo pensamento ainda hoje é guia para quem busca a sabedoria, tal como foi para Júlio César, Imperador Romano [Continua a ter o melhor livro escrito sobre a amizade “ Cartas a Lucílio “] ou de Henry David Thoreau (1817-1862) que foi um escritor norte-americano, autor da obra “Desobediência Civil”, uma espécie de manual do anarquismo pacífico, que influenciou Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela. Thoreau, por exemplo, defende que só no contacto com a natureza, longe das forças corruptas da civilização [pateticamente, o que não se vê nem sente em D. Trump…], o sonho da liberdade norte-americana poderia ser realizado.
Ontem, como hoje, a actualidade de tantos temas e defendidos também hoje por homens e mulheres que defendem este planeta e o ar que nele se deve respirar… Saibamos dar, cada um à sua maneira, contributos para um mundo melhor e de certeza daqui a mais de 2.000 anos ainda poderemos ser lembrados, como Séneca ou Thoureau pelos nossos vindouros. Mas esses nunca se puseram em bicos de pé para nada. Eram autênticos e genuínos. Eram História. O que faz um passeio pelo parque de La Salette…
PS. Actualmente as tamareiras já não levam 100 anos para produzir frutos, porque devido às engenharias genéticas podem frutificar em bem menos de 10 anos! Leram bem: “engenharias genéticas”. O poder do artificial, do que não é real nem verdadeiro. Princípio e fim. Do que o Homem quiser…

