Quid est veritas?

A verdade e a justiça são, hoje, conceitos equivalentes à opinião. Horroriza-me que, cada vez mais, haja pessoas bem pensantes que, perante factos comprovados, respondam: “isso é a tua opinião” ou “eu acho que isso não é verdade”.

Quando Jesus é apresentado perante Pôncio Pilatos para que este avalie os supostos crimes de que é acusado, este diz: “Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”. Pilatos responde-lhe com a mais intrigante, fundadora e valiosa questão sobre o que entendemos como sendo a Lei e o Direito. “O que é a verdade?” (Quid est veritas?, em latim). Façamos fa

st foward 2018 anos. Vivemos na era da pós-verdade, em que o conceito do que é crível, verosímil ou até provável ganhou uma plasticidade que, até há pouco tempo, seria impensável. O céu era, até há poucos anos, azul. A Terra era redonda. A água à temperatura ambiente era líquida.

Depois...e tudo as redes sociais levaram.

A verdade e a justiça são, hoje, conceitos equivalentes à opinião. Horroriza-me que, cada vez mais, haja pessoas bem pensantes que, perante factos comprovados, respondam: “isso é a tua opinião” ou “eu acho que isso não é verdade”. E isto tanto vale para as alterações climáticas como para a política como para as relações. Para a vida em geral. A era da pós-verdade, a legitimação democrática de mentirosos compulsivos como Donald Trump permitiram a normalização do embuste ao ponto de haver um entusiasmo coletivo em torno de quem mente dizendo que o outro está a mentir. O truque é falar alto e de forma convicta. E escrever muitos tweets e posts inflamados com links para sites de origem duvidosa (hey, alguém vai mesmo confirmar? Ninguém vai).

Mas a mentira, mesmo a aparentemente perfeita, tem sempre uma falha. Há sempre uma nesga por onde se tenta escapar a luz da verdade. E, mais dia menos dia, a falha cresce e expõe a falácia. O engodo. A congeminação. A trama.

Assistimos por estes dias ao espectáculo orquestrado da detenção de Bruno de Carvalho. Um acontecimento inevitável, do qual já se ouviam uns zunzuns há várias semanas. E, deleitados, atordoados ou simplesmente indiferentes, assistimos com espanto, primeiro, depois com anestesia, a um filme que já vimos.

Depois disto... haverá justiça? Onde está a verdade?

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