Da ontologia biológica à ética relacional e dialogal

Como afirma Daniel Serrão, “toda a gente é pessoa mas a pessoa doente é mais pessoa que toda a gente”.

1. A ciência médica no conjunto dos seus diversos saberes procura criar uma outra sabedoria: a sabedoria do cuidado e do cuidar das pessoas doentes. O imparável progresso científico enriquece, diariamente, os múltiplos saberes. Assim, da morfologia e fisiologia normais e patológicas, passou-se para uma bioquímica e uma genética moleculares que procuram compreender a vida norma e a vida da pessoa doente.
Os métodos de imagem, cada vez mais precisos e rigorosos, surpreendem, com a Ressonância Magnética Nuclear Funcional, um grupo de neurónio no hipocampo a evocar a memorização lá arquivada anos antes - os célebres, embora só recentemente descobertos, neurónio de sentido.

Os equipamentos endoscópicos vêem, fotografam, medem em profundidade, identificam e classificam lesões tumorais na parede gástrica ou colorretal. O eco-doppler mostra o sangue a percorrer o sistema arterial e ficamos a saber se o fluxo é bastante ou se põe em risco a nutrição de órgãos vitais. A cine-ecografia mostra como vive o embrião durante 24 horas ou mais, no seu meio aquático intrauterino, reagindo, assustado ou curioso, aos sons que, de fora, lhe chegam aos centros cerebrais da audição…Como se vê, com estes poucos apontamentos, percebemos como os saberes técnicos crescem exponencialmente e já levaram a múltiplas especializações profissionais da ciência médica, mas estas não são atividades clínicas.

2. Ao clínico – médicos e enfermeiros – que tenha à sua frente uma pessoa concreta com um coração que trabalha naquele tórax e não na fita de papel de eletrocardiograma, cabe-lhe juntar todos os dados científicos e descobrir o diagnóstico certo, entre os vários possíveis, a partir dos saberes científicos particulares.
Assim, a sabedoria científica exercida sobre estes saberes, conduz a inteligência do clínico ao diagnóstico certo que é um momento mágico da relação do médico com a pessoa doente que se entregou aos seus cuidados.
Do diagnóstico decorre uma série de intervenções sobre a pessoa doente, algumas simples, outra de extrema gravidade mas todas colocam à pessoa do médico ou enfermeiro face à pessoa do doente. Isto é, a partir deste momento passa-se de ontologia biológica para a ética relacional. Então como passamos da ontologia biológica para a ética relacional e dialogal?

3. No meu entendimento, suportado pela experiência sabedoria dos Mestres, três paradigmas principais podem ser enunciados: A ética personalista; a ética das virtudes; a ética principialista.
O primeiro paradigma de ética personalista coloca a tónica na pessoa doente; o segundo paradigma de uma ética de virtude coloca-o no cuidador; e o terceiro paradigma de uma ética principialista situa-se no processo relacional e de decisão.
Na sua essência, considero que são três modos, não exclusivos, de olhar a dinâmica da relação cuidador e pessoa doente. Todos os paradigmas cabem na riqueza da relação de cuidado entre um praticante das ciências médicas, um cuidador e uma pessoa que pede ajuda.

4. Não há conflito, no meu ponto de vista, nos três paradigmas que acabei de enunciar. Há sim complementaridade. Considero que nenhum profissional de saúde que vê na pessoa doente uma pessoa total, fragilizada mas não diminuída na sua natureza de pessoa única, irrepetível e insubstituível, não deixará de acolher o princípio de respeito pela sua autonomia pessoal; que é, em toda a evidência, atributo da pessoa total e juntar-lhe os princípios da beneficência e da justiça.
Para quem vê, na pessoa total, a máxima expressão do humano, ela é digna de todas as complacências. Tudo lhe será dado, porque tudo lhe é devido. Quem coloca a tónica na maior virtude pessoal – o amor, procurará sempre decidir o que for melhor para a pessoa doente, porque sendo bom, compassivo e fiel à sua promessa, a pessoa doente será sempre a sua primeira preocupação.
Porque, como afirma Daniel Serrão, “toda a gente é pessoa mas a pessoa doente é mais pessoa que toda a gente”.

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