Em situações de perigo eminente, há uma escala de prioridades e de protecção que indica crianças, mulheres, homens. Ou seja, as crianças devem estar no primeiro lugar para salvamento, seguidas das mulheres e depois os homens. É uma distinção natural, por uma questão de força física, inerente por generalidade, à condição de cada género. Por uma questão de igualdade de género, alterou-se tal definição e a ordem é crianças, idosos, adultos, podendo e devendo, homens e mulheres prestarem igual auxílio e, se houver necessidade, “ficarem para trás”.
Este é um pequeno exemplo da forma como se caminhado progressivamente para a igualdade de género, de forma realista.
Desde que tenho consciência que me habituei a ver as mulheres a trabalharem numa profissão remunerada – não condicionadas à profissão de doméstica -, muitas vezes com uma remuneração superior à do seu marido. Por isso, desde tenra idade, nunca fiz distinção de género nas profissões nem nas remunerações.
Nos desportos que pratiquei/ pratico, as regras são as mesmas para homens e mulheres, havendo apenas uma taça que possa distinguir classificações; mas não raras vezes as mulheres, na geral, ficam à frente do homem.
Tive a sorte de viver num mundo de inclusão. Mas a realidade, por vezes, não é assim.
Nos anos de ajustamento, nos anos da Troika, quando aumentaram de sobremaneira o número de desempregados, circularam muitas notícias sobre o facto das mulheres serem as primeiras pessoas a ficarem sem emprego, fazendo-as regressar à condição de domésticas. Ou seja, houve um retrocesso civilizacional.
Digo isto porque uma das condições para se garantir a liberdade, ou emancipação, está directamente relacionada com a independência financeira. Uma mulher com essa independência, mesmo casada, tem a liberdade de se mimar: ir ao cabeleireiro, comprar um vestido, arranjar-se perante a sociedade, adquirir electrodomésticos que permitam o auxílio nas ditas tarefas domésticas, fazendo com que tenha mais tempo para si e a restante família. Quando alguém passa da condição de trabalhadora/ operária, para doméstica, é isto que perde, em primeiro lugar. E aqui, neste período da nossa história, as mulheres ficaram duplamente desamparadas, numa divisão ideológica standartizada e pobre de esquerda e direita.
Desde Sá Carneiro a Sócrates - todos os governos! - aplicaram políticas social-democratas, onde o incentivo ao consumo permitiu a ascensão social de todos: saíram pessoas da pobreza e passaram a classe média/ baixa, a classe média e a pequena burguesia passou a uma classe média/ alta e, para alguns, houve a subida a patamares de riqueza que nunca tinham pensado.
Mas este discurso de incentivo ao consumo sempre teve dois críticos: o PCP e os revivalistas de Salazar, ou seja, a tradicional esquerda e parte significativa da chamada direita.
Chegados aos anos de ajustamento, de despedimentos e de corte ao consumo, para quem é que as mulheres se poderam virar, quando olhamos de forma simplista, como nos querem impor nos dias de hoje, para esquerda ou direita? Diria: para ninguém. Ou rebuscando, para a faixa mais à direita do PS e para a faixa mais à esquerda do PSD.
Aprendi com Helena Roseta que a social-democracia é a ideologia política que não deixa ninguém para trás.
Será que com as brilhantes contas que o Dr. Centeno apresenta, já há condição para as mulheres recuperarem a sua autonomia financeira e, com isso, crescerem uns centímetros?!

