A ver passar os comboios

Quando hoje se discute insistentemente a ligação direta ao Porto a nossa bitola devia ser defender em primeiro lugar os nossos interesses.

A Linha do Vale do Vouga comemorou por estes dias 110 anos de vida com comemorações que decorreram na totalidade em Santa Maria da Feira. A organização esteve a cargo mais uma vez das autarquias, desta vez sob a égide da Associação de Municípios das Terras de Santa Maria, presidida por Joaquim Jorge.

Justiça seja feita as autarquias, estas têm sido as únicas entidades verdadeiramente interessadas no tema. Encaro, por isso, este aniversário como mais um momento para manter o assunto em cima da mesa. No actual contexto de crise da ferrovia nacional, manter o assunto à tona de água não é de somenos importância.

Mais relevante é ainda quando, neste contexto de dificuldades, assistimos a um anúncio de investimento na ordem dos 17 milhões de euros para aplicar já até 2021 entre Espinho e Oliveira de Azeméis. Desta fatia de investimento há uma pequena parcela que me chamou particular atenção nos anúncios feitos no Europarque: o investimento de 900 mil euros em Paços de Brandão, Santa Maria da Feita, para criação de um “parque de materiais e oficinas de abastecimento e manutenção”.

Porque é que este anúncio me chamou a atenção? Por dois motivos. O primeiro é que tal significará o encerramento definitivo do troço para sul de Oliveira de Azeméis. Neste momento a manutenção e abastecimento na Sernada é a única razão que faz os comboios circular entre Oliveira de Azeméis e a Sernada sem passageiros e com naturais incómodos para quem lá vive. O segundo motivo é que Oliveira de Azeméis deixou de ser uma hipótese para a localização dessas oficinas como até há bem pouco tempo o poder local de Oliveira de Azeméis defendia e a própria empresa gestora parecia concordar. 

Este equipamento, ainda que de pequena dimensão, dotaria o concelho de infraestruturas e de competências na área da manutenção ferroviária. O que mudou então para que essa hipótese tenha sido afastada? São desconhecidos, pelo menos até agora, os argumentos técnicos, financeiros e também políticos para tal alteração.

A misteriosa mudança de Oliveira de Azeméis para Santa Maria da Feira merece ser explicada aos oliveirenses.
Porque ficámos a ver os comboios passar?
Por distração?
Por pouca influência?
Ou nenhuma influência?
Porque concordamos com a estratégia?
Importa saber o que se passou, não concordam?

É importante perceber porque ficámos a ver os comboios passar, não acham?

Por outro lado, importa olhar para a história e perceber que, quando começou a ser projetada, a linha do Vale do Vouga correu sérios riscos de não passar por Oliveira de Azeméis. Valeu, na ocasião, a influência de personalidades como Bento Carqueja para que isso viesse a acontecer. E é hoje indiscutível que a ferrovia foi fundamental para o desenvolvimento local durante décadas. E quando hoje se discute insistentemente a ligação direta ao Porto a nossa bitola devia ser defender em primeiro lugar os nossos interesses, sobretudo aqueles que garantam que não nos tornemos dispensáveis no futuro.

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