Façam este exercício: abram armários, gavetas. Vão até à despensa, arrumos, garagem, sótão, àquele canto escondido onde guardam tralha e procurem presentes de Natal que vos foram oferecidos e estão agora esquecidos. Respondam a estas perguntas.
1) quem é que me ofereceu isto?
2) quando é que me ofereceram isto?
3) isto significa alguma coisa para mim?
O mais provável é não saberem responder às duas primeiras perguntas e a terceira ter uma resposta negativa. Porque a triste verdade é esta: no Natal, sentimo-nos na obrigação de dar. Nem que seja qualquer coisa. Uma “lembrancinha”. Vemo-nos coagidos a gastar dinheiro em objetos inúteis, só para não ficarmos mal vistos perante amigos e familiares. Acabamos por nos arrastar, de loja em loja, a suar em shoppings, encafuados em parques de estacionamento saturados de monóxido de carbono, irritados em filas. Filas para experimentar, filas para pagar, filas para embrulhar.
Achamos que todo este dispendio de energia se vai traduzir em alegria e amor. Que lógica tóxica esta que nos domina e que se torna ainda mais perversa quando aplicada aos mais pequenos. Educamos as crianças a interpretar um objeto como sinónimo de felicidade, a valorizar o adulto que oferece mais e melhor, a vilificar o pai/mãe/avó/tio que diz “não”.
E depois de deitar fora os papéis de embrulho, a fita, as caixas, de encostar a um canto dois terços da cangalhada recebida (nenhuma criança tem capacidade de brincar com tudo o que recebe), começa novamente a contagem decrescente para aniversários, Páscoa, Dia da Criança. Mais pedidos, mais dinheiro, mais prendas. Mais, mais, mais.
Transformamos o Natal numa feira. Uma feira de inutilidades, de obrigatoriedade, de “obrigados” constrangedores a objetos anódinos que não servem para nada. O Natal devia ser só o dia 24 e 25 mas é o olhar preocupado para o saldo da conta no dia 15 depois das prendas compradas. É o sorriso amarelo ao abrir aquela lembrancinha idiota de 5 euros no amigo secreto no trabalho.
São as cobranças, é a pedinchice, é a solidariedade temporária. É despachar 2 pacotes de arroz para o Banco Alimentar para não ficar com peso na consciência e gastar 2000 euros numa televisão. É roupa nova, é peso a mais, é compulsão, é desilusão.
É impossível vencer esta batalha. Eu já baixei os braços, esmagada pelas convenções. Já tentei não oferecer nada. Já enveredei pela via do do it yourself. Já propus juntar o dinheiro do amigo secreto e, em vez de tralha, dá-lo para uma instituição de solidariedade. Ninguém gostou da ideia.
Já desisti de tentar impor as minhas ideias porque, se mais ninguém concorda, é porque somos nós que estamos errados.
Este Natal, se puderem, tentem comprar com propósito e intencionalidade. Gastem menos dinheiro e mais tempo. Menos dinheiro em objetos e mais tempo na pessoa a quem vão oferecer esse objeto. Se nada mais resultar...Sabem o que é mesmo útil e nunca passa de moda? Meias e cuecas.
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