O Natal é o tempo da família e está aí à porta!
O que vou dizer, até há uns cinco anos atrás, seria um perfeito disparate; mas, com a comunicação e conteúdos via smartphones – unipessoal – a televisão passou a ser um elemento agregador da família. Se até então uma televisão poderia ser um factor de distração de reuniões familiares, hoje em dia, com um caminho cada vez mais individualista – ou até egoísta – que a sociedade atravessa, a televisão passou a ter um papel diferente e de união.
Ao falar de televisão em Portugal, de conteúdos de excelência para televisão, é incontornável falar de Herman José.
Herman e o Natal traz à memória coisas como “Senhor Dr. Juiz, antes de mais queria dizer: hohoho hohoho hohoho” para, mais à frente, “ora está nas palhas estendido ora está nas palhas deitado; se está estendido está estendido se está deitado está deitado”, numa rábula crítica ao Juiz Decide, com as interpretações fantásticas de Miguel Guilherme, José Pedro Gomes e Maria Rueff.
O “Herman Enciclopédia” terá sido, talvez, o programa mais marcante do actor e da própria televisão portuguesa: na RTP, com tempo e dinheiro para construir personagens com qualidade – por exemplo Diácono Remédios, que no canal estatal tem uma pronúncia beirã, de seminarista, com tiques de autoritarismo católico e salazarista, com fala pausada e, depois, na SIC, com um sotaque nortenho, a falar mais rápido porque tempo é dinheiro, especialmente em televisão -, com liberdade, fazendo crítica política e social, brincando/ homenageando pessoas como Júlio Machado Vaz, Fátima Campos Ferreira, António Guterres, Maria José Ritta, Lauro António e muitos outros.
É também neste programa que se reúnem excelentes actores e excelentes escritores que, como uma escola, Herman José sempre apoiou. São inúmeros para os referir a todos e destaco, como exemplo, São José Lapa, Joaquim Monchique, Lídia Franco, Vítor de Sousa, António Feio, Manuel Cavaco, Alice Vieira. Na escrita, Nuno Artur Silva, José de Pina, João Quadros e Nuno Markl.
Tudo isto que vinha de trás, no seguimento dos Monty Python e que teve expressão em “O Tal Canal”, “Hermanias”, “O Crime na Pensão Estrelinha”.
Mas Herman não teve uma vida fácil: Rita Blanco referiu há dias que o impediram de trabalhar por questões pessoais. O próprio Herman disse na RTP que perdeu um contrato porque fez uma piada com o marido da directora de uma marca, em 1991!
Mesmo nos períodos mais negros da sua história, o actor demonstrou ser tudo aquilo que é: uma pessoa culta, educada, um filho de excelência da chamada classe média e, com isso, sobreviveu melhor que todos os outros.
Hoje em dia, felizmente para o humor português e para a nossa sanidade mental, Herman José volta a ser notícia e aclamado e disputado pelas salas de espectáculo, pelos canais de TV; e foi tudo obra do seu trabalho, de nunca ter desistido, de voltar à escrita, à estrada, ao piano. De ter percebido a importância das redes sociais e de inventar novas personagens – com filtros do Snapchat – e disponibilizar conteúdos gratuitos no Instagram e no Youtube.
Por isso neste Natal, em com o bacalhau e as rabanadas, à volta da TV, veja ou reveja Herman José. Não será para passar o tempo; será um tempo de excelência.
Bom Natal

