Um país à “sa foda”

Quantos de nós não trabalham à ‘sa foda’? Quantos não têm a mentalidade de fazer os mínimos olímpicos, mais ou menos bem feito, à ‘sa foda’, só para levar o dinheirinho ao fim do mês para casa? 

Este podia (e, se calhar, até deveria) ser um texto natalício, positivo e em tom alegre. Apropriado à quadra. Mas, antes que entremos todos em coma glicémico, alcoólico e consumista, deixem-me deitar isto cá para fora. Depois podem voltar a fingir que enfiar filhoses pela goela abaixo e ouvir os gritos histéricos da canalha a desembrulhar mais um mastodonte de plástico que, daqui a três 3 meses, vai acabar na lareira ou no lixo, tem realmente importância.

Costumo usar a expressão “à sa foda” para designar algo feito de forma displicente. «Ela fez aquilo à ‘sa foda’», «Aquilo está planeado à ‘sa foda’». Ou seja, em bom português (e perdoem desde já o vernáculo mas... noblesse oblige), esta expressão é perfeita para designar o cantinho em que vivemos.

Ao olharmos para os 12 meses do ano que agora está a terminar, facilmente concluímos que vivemos num país em que tudo é feito à ‘sa foda’. Exceto aquilo que é para inglês ver. Por exemplo: este ano organizámos o maior espectáculo televisivo do mundo, a Eurovisão, e foi considerada a melhor de sempre (verdade!). Conseguimos coordenar milhares de pessoas num evento visto por 200 milhões em todo o mundo mas não conseguimos resolver uma rede de comunicações de emergência a tempo de salvar quatro pessoas. Conseguimos vender a imagem de um país desenvolvido, cosmpolita, enchê-lo de milhares de turistas dispostos a pagar 500 paus por um pastel de nata e não conseguimos coordenar esforços para fechar estradas que são verdadeiras torres de mikado prestes a cair. Conseguimos ter um português no lugar cimeiro da ONU e não conseguimos salvar 114 pessoas dos incêndios. Conseguimos erigir obras públicas em tempo recorde e não conseguimos fazer meia dúzia de casitas para os que sobreviveram ao inferno dos fogos.

Há investigações, relatórios, pesquisas, mil e uma comissões. Nenhuma apura, nenhuma conclui o óbvio. É tudo feito à ‘sa foda’. As estradas são feitas à ‘sa foda’, os planos de emergência são feitos ‘sa foda’, até a tentativa de salvar pessoas é feita à ‘sa foda’. E depois morremos e ainda vêm, cheios de lata, dizer que não há indemnizações para ninguém. Que Borba foi uma pena. Que Pedrógão também. Que se reze muito pelas vítimas e já está. Meia bola e força. À ‘sa foda’.

Mas não será isto o espelho de quem somos enquanto país? Quantos de nós não trabalham à ‘sa foda’? Quantos não têm a mentalidade de fazer os mínimos olímpicos, mais ou menos bem feito, à ‘sa foda’, só para levar o dinheirinho ao fim do mês para casa? Quantos preferem ir passear para o shopping a ir votar? Quantos preferem investir num telemóvel topo de gama do que na educação? Quantos se vangloriam de fugir aos impostos, roubar sem serem apanhados? Quantos, em cargos importantes, têm como único objetivo encher os bolsos, fazer qualquer coisa à ‘sa foda’ e fugir enquanto é tempo?

Nós somos o país à ‘sa foda’. O que só se veste bem quando tem visitas. Infinitamente pobres, mais do que no bolso, no espírito. Um país de encolher os ombros tem, na sua liderança, quem igualmente o faz. Quem vive à ‘sa foda’ não pode esperar mais de quem o governa.

Bom Natal! Que 2019 seja um ano menos à ‘sa foda’.

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