O caráter cíclico da Natureza permitiu à Humanidade, desde há séculos, distinguir os quatro ciclos dos movimentos solares que designamos por equinócios e solstícios representando o ciclo da vida.
Também o Homem, no decurso da existência, conhece quatro etapas de desenvolvimento: infância, adolescência, idade adulta e velhice. Sobre esta última fase, o romancista Victor Hugo, na obra “Os Miseráveis” pronuncia-se com uma frase lapidar: “A miséria de uma criança interessa a uma mãe, a miséria de um rapaz interessa a uma rapariga, a miséria de um velho não interessa a ninguém”.
A citação induz a seguinte reflexão: que resposta pode a sociedade proporcionar aos idosos, aos doentes e àqueles que por alguma vicissitude da vida, sofrem? Atualmente a sociedade tende a esquecer tudo o que não forme “pendant”: as primeiras “vítimas” são, desde logo, os mais velhos, débeis e os menos afortunados da vida. As sociedades, ditas desenvolvidas, encetaram um ciclo ímpar de consumismo, ofuscadas pela opulência ilusória do “ter”, a par de um amorfismo, distanciamento, esquecimento e até abjeção perante os esquecidos ou abandonados pela sociedade.
O saber e o amor deram lugar à posse como forma de afirmação pública. Muito se espera de gerações como os “Millennials”: formas alternativas de pensamento e ação com potencial de mudar o mundo. Porém, até ao momento, tudo permanece inalterado. Não há “app” ou “unicórnio” que resolva os problemas dos abandonados da sociedade. Estes, continuam a (sobre)viver como sempre o fizeram: com sacrifício, dor e resignação: a aguardar uma sentença médica que lhes comunique o termo da vida, à espera da cura que não chega ou de um abrigo que os proteja. E tudo isto ocorre perante a indiferença de quem passa, de quem num frenesim fútil corre todos os shoppings e conhece todas as tendências em voga.
Os abandonados da sociedade tornaram-se, pois, um incómodo a ocultar dos olhares mais indiscretos, afinal nada pode ocultar o brilho da nova aquisição da moda. Mas a realidade é inexorável: todos teremos consciência do sofrimento em época de provação: na doença que se avizinha ou na morte de que não se escapa. E o que faremos, então, quando já não sentirmos força para mudar o mundo? Resta recordar o tempo em que, quando jovens, plenos de vigor e energia, nada fizemos para aconchegar os necessitados e acautelar o seu e o nosso próprio futuro.
Esperemos que os “Millennials” tenham o engenho de impulsionar as mudanças necessárias a reverter esta situação e que a geração que lhes suceder esteja dotada dos meios que lhes permita viver com dignidade. Os hospitais não podem fechar portas e as respostas sociais não podem continuar a existir apenas onde “Judas perdeu as botas”. É imperativo que as gerações atuais reflitam seriamente sobre o tema. Hoje são os outros que sofrem, mas amanhã seremos todos velhos e teremos o mesmo tratamento que facultámos à geração que nos antecedeu. Claro que haverá sempre alternativas: Unidades de cuidados continuados privadas vão começar a surgir. O que é excelente, mas… a custos acessíveis apenas para os privilegiados da sociedade – mas esses são em número residual. E todos os outros? E o povo?
O Estado não pode continuar a ignorar um problema que existe, é duro, de difícil resolução, mas toca a todos. Tem o dever moral e constitucional de proporcionar as condições adequadas a que todos vivam com dignidade. Espera-se e deve-se exigir do poder político um papel mais ativo e empenhado nesta matéria. O Serviço Nacional de Saúde deve, não apenas, ser salvaguardado, como desenvolvido e os cuidados de saúde em todas as valências e idades, acautelados.
Muito tem de mudar na nossa sociedade para que seja verdadeiramente civilizada e não apenas tecnológica. As novas gerações têm o dever para com os seniores, e para consigo próprias, de providenciar que situações de carência e dependência social não sejam o legado das atuais gerações para o futuro. Se os políticos do “sistema” não dão resposta, outros aparecerão com ideias mais modernas e “arejadas”. Agora, o que é preciso é não deixar “morrer” esta ideia. Isso basta para que este texto já tenha valido a pena.

