1. Volvidos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), é tempo de falar da responsabilidade humana universal. A globalização da economia mundial trouxe, simultaneamente, problemas globais. Ora se os problemas são globais, exigem, portanto, também soluções globais que passam por uma exigência de respeito mútuo dos valores e normas das diversas culturas e sociedades. O reconhecimento desta realidade exige de todos os cidadãos o estabelecimento de direitos e responsabilidades.
2. A importância de estabelecer uma base ética para todos os homens, isto é, uma ética universal, é essencial para que a população mundial viva pacificamente e construa dentro dos limites da liberdade, justiça e paz um mundo melhor e mais cuidado (um mundo dado com amor).
3. Como temos vindo a verificar a ordem internacional não se alcança só por prescrições ou leis, que são certamente necessárias, mas tem que assentar numa ética mundial. O desenvolvimento universal da humanidade só pode ser concretizado por valores acordados por princípios e depois em normas aplicáveis a todas as pessoas e a todas instituições. Por princípios éticos consideramos aqueles que encontram elo de ligação entre os valores que uma Sociedade aceita como normas sem precisar de demonstração - e por isso são chamados prima facie - nas quais se concretizam os comportamentos que respeitam esses valores e princípios éticos. Por exemplo a Liberdade como valor não precisa de ser demonstrado, mas para respeitar este valor precisamos de um princípio que permita passar do valor à norma – o princípio da Autonomia, este que é o corolário do valor da liberdade; porque sou livre posso tomar decisões autónomas e responsáveis, com base no princípio da autonomia que apela à responsabilidade da minha decisão.
4. Assim, deste modo, a conjugação do princípio e do valor tornam-se norma. No caso do valor da liberdade e do princípio de autonomia, a sua concretização não acontece como vulgarmente se diz “a minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro”. Se assim for estamos a anular a liberdade e a autonomia de um sobre o outro, o que contradiz a matriz ética da DUDH, sendo que nem o valor nem princípio se concretizam.
5. A liberdade e a autonomia de uma pessoa só se realiza quando conjugadas com a liberdade e autonomia do outro. Isto é, do ponto de vista ético não é o terminar da minha liberdade que dá a liberdade ao outro, mas sim a conjugação da liberdade dos dois que aumenta o espaço de liberdade de cada um. Reduzir a liberdade de um sobre o outro, não aumenta a liberdade de um outro, pelo contrário, diminui a liberdade de ambos e o espaço da liberdade.
6. Reduzir a liberdade do outro para aumentar a nossa, é reduzir a conduta moral e os princípios éticos a uma ética utilitarista, individualista e, no mínimo, egoísta; inversamente, se focalizarmos a nossa conduta por uma ética personalista e pessoalizada, ambas as liberdades – a minha e a do outro –, aumentam espaço relacional e aumentam a liberdade e a autonomia da cada em particular, porque não se anulam a si mesmas, mas completam-se. Hoje, volvidos 70 anos da DUDH, mais do que nunca, é necessário viver e transmitir os valores e os princípios éticos nela inscritos, que são de inclusão e de complementaridade.

