Cultura em terras oliveirenses - breves notas

Povo sem memória arrisca-se a ser esquecido. Promover a cultura é propiciar mais e melhor desenvolvimento humano, logo, da comunidade oliveirense.

Do que se sabe - e é inegável - Oliveira de Azeméis (OAZ) teve, em vários períodos, significativas e mais ou menos duradouras intervenções no panorama cultural (através de instituições e/ou de cidadãos a título individual).

A título exemplificativo, bem longe de esgotar a inventariação, destaco algumas: o Grupo Dramático de Oliveira de Azeméis (1924/1930) ; a fase inicial da Escola-Livre de Azeméis (fase de 1923 a 1933), com ensino de música, orquestra, canto, teatro, conferências, Tuna, cursos de alfabetização, cursos práticos relacionados com a agricultura; Cine Clube de Azeméis (como muitos outros, ‘forçado’ a encerrar em 1962 por imposição da Ditadura); diversas Bandas de Música; Grupo Folclórico de Cidacos (danças populares e etnografia); a ARCA (Associação Recreativa e Cultural de Azeméis) (fundada em 1969 e extinta no início dos anos 80); inúmeros artistas e artífices (que para além do trabalho para angariar sustento se dedicavam à criação e até ensino: entalhadores, ferreiros, canteiros, ….) sem esquecer (ou havendo mesmo necessidade de lembrar/divulgar) um vasto número de oliveirenses em áreas como literatura, pintura, escultura, teatro, cinema, fotografia, arquitectura.

A evolução (ou progresso) é uma realidade incontornável das civilizações pelo que, na vertente cultural também, as formas de intervir, divulgar, conservar, mostrar, no domínio cultural não fogem à regra e vão ganhando novas formas.

Será que em OAZ ainda existe essa dinâmica - que muito a marcou em muitos e muitos anos no último século - num contexto global e globalizante?
Parece-me que - apesar de tudo - sim.

Sem decerto tudo contabilizar, podemos registar: seis Bandas de Música (autênticos conservatórios e que movimentam centenas de pessoas), Grupos Corais, Grupos de Teatro, Grupos Folclóricos, diversas Associações, Casa-Museu Regional. De notar ainda algumas iniciativas recorrentes como o Concurso Internacional de Instrumentos de Sopro, Prémios Literários (como o de Ferreira de Castro e o de Agostinho Gomes).

Porém, para o futuro, além de se manterem em actividade as organizações e iniciativas culturais existentes, será desejável equacionar e apoiar iniciativas como:
Património (natural e construído):

- prosseguir, de forma mais aprofundada, a sua inventariação e cadastro. Permitirá, por exemplo, estabelecer roteiros para livre uso dos interessados bem como, de forma periódica, percorrê-los com o enquadramento de guias profissionais e identificados com tal património.
Entre outros objectivos, tais iniciativas possibilitarão dar a conhecer a vários segmentos de interessados (investigadores de diversos saberes, comunidade escolar, população em geral, turistas internos e até externos) aspectos como:
- lugares com relevância arqueológica
- diversos estilos arquitectónicos e que ‘balizam’ épocas, modas
- ferro forjado
- azulejaria (o que ainda resta...)
- arte pública
- Apoio à edição de primeiras obras (no domínio da literatura, ensaio,...);
- Oficinas criativas em áreas como escrita, pintura, cinema, fotografia, ...) com a intervenção/coordenação de especialistas;
- Melhoria do processo de comunicação sobre divulgação, sinalização, de eventos e iniciativas de cariz cultural;
- Prosseguir com os anais de OAZ e divulgar os já existentes;

Outras iniciativas de ordem cultural e lúdico a serem equacionadas:

- Criação da “Casa do Tangram” : um dos maiores criadores mundiais deste tipo de arte é oliveirense. No passado (há cerca de 2 anos) propôs tal à autarquia. Sem qualquer resposta. Não nos admiremos se tal iniciativa vier a “nascer” em concelho vizinho;
- Ciclos de cinema ‘alternativo’: documentário, curtas-metragens, de amadores;
- Espólio da “Foto Paul” (tantas vezes prometido, falado, (in)justificado): um ‘tesouro’ raro do património documental oliveirense que por insensibilidade, desconhecimento, pouco tem avançado (nota: nos últimos meses, o Arquivo Municipal deu um importante impulso. Porém, o acervo merece um espaço mais desafogado e visível);
- “Casa de memórias” da história da indústria oliveirense (vidro, arroz, moldes, louças metálicas, ferro forjado...);
- Uma “Casa dos Artistas Oliveirenses”: contam-se por dezenas e dezenas os oliveirenses (natos ou ‘adoptivos) com obra reconhecida e até mesmo premiada (quer a nível interno quer internacional). Uma singela obra, maqueta, documento, etc de cada um desses artistas poderá ser uma forma de não se perder memória e de atrair visitantes.

Em aqui chegados, perguntar-se-á: e recursos físicos, humanos e sobretudo financeiros? E caberá só à autarquia sustentar a cultura
Direi que não. Não caberá a ela de forma única e exclusiva tais encargos.
Que a autarquia tem papel nuclear na iniciativa política, na visão e aplicação estratégica (e não apenas táctica) não duvido.
Algumas iniciativas podem ser auto-sustentadas, outras, ainda que subsidiadas, podem gerar benefícios materiais (ainda que de forma indirecta) e imateriais para a comunidade.

Se se contabilizarem as despesas com muitas das iniciativas de natureza efémera, fugazes, as que se esgotam quando “os holofotes”, apesar de necessárias e importantes, com outra ‘repartição’ de verbas, poder-se-á ir erguendo uma forte, visível e identitária cultura oliveirense e em Oliveira de Azeméis.

Povo sem memória arrisca-se a ser esquecido. Promover a cultura é propiciar mais e melhor desenvolvimento humano, logo, da comunidade oliveirense.

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