Artista do passado que se prezasse gostava de uma boa pinga ou uma drogazita aqui e ali. Havia também os ocasionais agressores de mulheres, um ou outro pedófilo. Poetas e escritores sempre foram conhecidos – além de pelas suas magníficas obras que, resistindo à passagem do tempo, ensinaram e inspiraram – pelas suas avarias mentais. Bipolares, esquizofrénicos, suicidas, a maioria bastante depressiva e dada às melancolias.
Nem o cartesiano Eça escapava, uma vez que, por falta de mãe, lá lhe deu para por um irmão a ter um caso com uma irmã (coisa que, de resto, traumatizou gerações atrás de gerações que, no 12º ano, foram confrontadas com a leitura desta barbárie).
Numa altura em que se fala tanto da urgência de promover a saúde mental, faz todo o sentido que a maior editora deste país se tenha preocupado com a exposição dos nossos jovens aos seguintes versos e os tenha abolido de um manual escolar.
«Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas» e «E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada»
Os versos supracitados fazem parte do poema Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa. O que diz muito da chanfradice do poeta em causa que, não contente por escrever em nome próprio, ainda teve de inventar uma cambada de gente imaginária para assinar com mais nomes. Ainda se fosse para forjar assinaturas em cheques, agora para escrever poemas!
Voltando à vaca fria. Pois que os tais versos deveriam constar no livro de Português do 12º ano, livro esse para jovens de 17 e 18 anos. Já passou algum tempo mas tenho uma vaga recordação do meu 12º ano. E, tendo sido aluna de Humanidades, de certeza que me passou pela frente a Ode Triunfal. Graças a Deus, não me deu para virar prostituta nem pedófila. Nem tão-pouco fiquei traumatizada com a leitura. Mas, nos tempos que correm, é melhor prevenir.
É melhor prevenir porque os jovens de hoje em dia nem têm acesso ilimitado à internet nem nada. Nem conseguem ir ao Google e ver, em 5 segundos, os versos que a tal editora quis que não lessem. Os jovens de hoje em dia não têm acesso a pornografia com um simples swipe. Não estão sujeitos a, nas redes sociais, serem alvo de bullying, chantagem e perseguição por parte de stalkers, pedófilos, etc.
É melhor prevenir e, já que estamos nisto, acabar com toda a poesia. E a prosa. E todos os livros subversivos, sob pena de traumatizar matulões e matulonas perto da maioridade. Agora que o assunto Álvaro de Campos está arrumado, proponho que, na escola, apenas se leiam receitas de culinária e bulas de medicamentos. Todas as bulas exceto da pílula e do Viagra... não vá aquela gente ficar com ideias.
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