O fenómeno associativo em Oliveira de Azeméis é, reconhecidamente, pujante contribuindo de forma significativa para a dinamização e projeção do concelho. Este facto, por si, é revelador do espírito de iniciativa e empreendedorismo dos oliveirenses. Engrandece o concelho, pelo que deve ser acarinhado e apoiado.
Deve, no entanto, evitar-se que aquilo que nos engrandece fique cativo de interesses alheios ao seu fim, subvertendo o espírito que presidiu à sua criação. As associações são e devem ser o reflexo do móbil que motivou os seus associados e fundamentou a sua criação.
Criar algo que mobiliza os cidadãos tal como uma associação artística, cultural, ou que prossiga qualquer outro objeto de relevo social e cívico é de enaltecer devendo, no entanto, evitar-se dois grandes erros: os órgãos diretivos devem manter-se tão independentes quanto possível, concentrando todo o seu potencial na prossecução do objeto previsto nos respetivos estatutos, e os interesses corporativos instituídos não podem cair na tentação de se substituir aos órgãos eleitos ou de alguma forma influenciar a sua atuação.
O motivo por que convido os leitores a esta reflexão é porque, na verdade, ao longo dos anos, algum associativismo sucumbiu ao status quo local dominante. Fruto da subsidiodependência ou de algum servilismo decorrente da credulidade dos mais ingénuos, tornou-se a longa manus daquele, desvirtuando os seus princípios e frustrando a expectativa dos associados mais atentos. É preciso evitar a todo o custo esta postura. O associativismo não pode ficar refém de interesses alheios, devendo as opções dos corpos diretivos ser sempre norteadas pelo fim estatutariamente definido e as eleições livres e democráticas em toda a sua plenitude.
Por outro lado, não se espera que o altruísmo do criador ceda perante uma putativa vantagem efémera, potenciando o surgimento de caciquezinhos locais cujo valor se resume à subserviência perante o seu Senhor. Subverter estes princípios é perigoso, um mau serviço prestado aos associados, à população e à própria democracia. E isto vale para todas as associações ou grupos de pessoas que, de alguma forma, se agregam, com um propósito comum. As coletividades e quem as dirige tem o dever inalienável de se manter fiel aos princípios constituintes, não se deixar iludir pelo canto da sereia ou, ainda pior, ir ao encontro da sereia.
O mérito do nosso associativismo não pode ser pervertido ou apropriado, sob pena da subversão dos princípios subjacentes à sua criação e que devem nortear a prossecução do seu objeto. As associações têm como fito servir o outro e não os próprios. Tudo isto parece evidente, mas a sabedoria popular ensina que “nem tudo o que parece é”, e caso estes princípios não sejam cumpridos, devem ser objeto da nossa mais contundente condenação.
Um exemplo claro e merecedor do nosso mais veemente repúdio é a apropriação das associações por parte do poder político em momentos eleitorais. As associações civis não servem interesses políticos e não devem estar na sua dependência. Seria um enviesamento absurdo dos alicerces da nossa democracia, da credibilidade associativa e desestabilizador da confiança dos cidadãos.
Esta postura que, embora não dominante, é uma realidade, constitui um sério obstáculo ao livre pensamento, à livre escolha de cada um, na medida em que procura condicionar e moldar o pensamento do outro ao seu próprio interesse. E um atitute destas multiplicada por algumas instituições pode alterar escolhas ou opções livres. Podemos, é certo, dizer que nenhuma opção assumida é inteiramente livre. É verdade, mas este tipo de peias radica em personalidades torpes que devemos abjetar por prejudicial a todos.
Esta é uma matéria sobre que devemos refletir para que, aquilo que hoje nos engradece não seja apropriado por algum interesse corporativo com o potencial de entorpecer e tolher o nosso futuro coletivo.
O associativismo deve ser apoiado pelo poder público mas não apropriado pelo mesmo.

