Uma fábula

O problema foram os jornais! Uma vergonha! O que é que interessava isto ao povo? 

Era uma vez um rico homem chamado José das Neves. José nasceu pobre mas com tempo, esforço, perseverança e vontade, tornou-se rico. Muito rico. E com a riqueza veio o poder. José construiu um império a pulso, a custo. Um centena de milhares de contos aqui, outra ali. Depois, o primeiro milhão. E mais um. E mais um. José era um homem feliz e via tudo florescer à sua volta.

O negócio, as empresas multiplicavam-se, o trabalho para toda a gente da terra. E veio a família também. Escolheu uma mulher séria, para todo o sempre. Como Deus manda. E, com a graça de Deus, vieram os filhos. E os netos. E muitos afilhados. Muitos afilhados.

Não negava ajuda a ninguém. Começou por dar aos próximos, depois aos meio distantes. Depois vieram as coisas grandes. Com dinheiro vem poder e com poder vêm mais amigos. Amigos poderosos, influentes, ajuda aqui, ajuda ali. Tudo o que tocava à sua volta tinha o seu nome. E José era feliz.

Mas um homem que tudo pode dificilmente se satisfaz com o que tem. E José andava insatisfeito. De quando em vez, cedia aos seus ímpetos de homem que ainda era viril. Como qualquer homem com o seu estatuto o faria. Família de um lado, o resto do outro. Virtudes para Deus ver, vícios partilhados com o demónio. E se foi coisa do Demo! A legítima de vez em quando lá desconfiava de qualquer coisa mas, como mulher temente a Deus, calava e sossegava.


Os filhos lá continuavam, entretidos com as suas vidas. E ele, que tinha tudo, precisava de colo. Do calor ternurento que só uns braços suaves e firmes de idade podem conceder. E foi aí que errou. Ele, que sempre foi homem de contas certas, enganou-se redondamente! Enganou-o Olenka, com os seus redondos olhos verdes e o sotaque frio das estepes. Enganou-o bem enganado! Quem lhe mandou confiar naquela raposa matreira?

Quando soube já era tarde demais para resolver o assunto. Renegado, mais pelo incómodo que a situação lhe ia custar do que com Olenka e a menina, lá aceitou montar-lhe casa. Prometeu-lhe quantia generosa até ao fins dos dias dela. Se se mantivesse por perto, mas longe o suficiente para não ter ideias.

Mas Olenka era de ideias fixas e queria mais. Queria o apelido dele na certidão da filha. E o resto, claro! Tremeu perante a perspetiva de uma bastardazinha meia estrangeira herdar-lhe a fortuna. E o que ia ser dos filhos? E dos netos? Ai Jesus, que não podia ser. Tentou dissuadi-la. Comprá-la. Mas a malvada estava convicta. E, depois, veio a vergonha pública. Soube-se. Não que já não se soubesse porque a mulher, assim que soube, numa fúria, resfolegou aqui e ali aos vizinhos. Mas com esses podia ele bem!

O problema foram os jornais! Uma vergonha! O que é que interessava isto ao povo? Ele, que tanto bem tinha feito, não tinha direito a errar? Contratou os melhores advogados, gastou fortunas. Sabia que o dia ia chegar mas, em negação, dizia a si mesmo ‘não’.  

O dia chegou. A justiça tardou, mas apareceu, cega à sua benfeitoria. Chegar a esta idade e ver a reputação assim, na lama, por uma Maria vai com os outros? Não havia direito. Levantou-se. Foi à janela. Pediu ao segurança para enxotar a equipa da Notícias da Tarde TV que teimava em querer falar com ele. Deus, por vezes, era cruel.


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