“Ainda vai dar comendador”

Pior mesmo é o ruído causado pelos “cães de fila e companhia” que destilam ódio nas redes sociais contra tudo o que põe em causa o “fiel dono”.

Uma das reações mais interessantes que tive ao meu último editorial foi um comentário numa rede social por parte de uma pessoa que disse o seguinte: “Este gajo é um patologia (sic) a armar em esperto. Tem a quem sair!” Ainda vai dar comendador…”. Na realidade, este miminho mal escrito é bastante revelador, pois dá total razão ao artigo de opinião escrito por Bruno Aragão neste jornal chamado “Apelo”.

O autor, que é o presidente da Comissão Política Concelhia do PS, salienta o seguinte: “Tenho a convicção profunda que não podemos nem devemos perder tempo em diálogos estéreis, ou a alimentar tentativas de levantar suspeitas mais ou menos explícitas sobre as pessoas. Desanima-me a má política”. Não podia concordar mais. Aliás, todo o artigo deveria servir de cartilha aos nossos políticos, pois refere aquilo que realmente importa, apelando à participação colectiva, sem medo de salientar problemas ou criticar soluções, elencando também uma série de medidas que tem levado a alterações significativas na forma de fazer política – segundo a lente do autor, é claro.

É precisamente neste “apelo” sentido e profundamente honesto que os 40 anos de governação monocolor até fizeram mossa. Anos a fio do mesmo partido criaram lealdades de conveniência, constrangimentos decorrentes de favores a montante, inibição de opinião pelas proximidades criadas e, inevitavelmente, défice democrático. Curioso constantar que após a mudança ocorrida com a vitória socialista, permanece um certo receio quando se critica, sugere ou se mostram caminhos alternativos.

Pior mesmo é o ruído causado pelos “cães de fila e companhia” que destilam ódio nas redes sociais contra tudo o que põe em causa o “fiel dono”. E isto é mesmo muito mau, pois impede qualquer discussão saudável e salutar sobre os reais problemas, ou diria antes, sobre as eventuais soluções que possam ser co-construídas entre a sociedade civil e a classe política local.

O “Apelo” é real e honesto, daí também ser fundamental que os líderes políticos locais ponham algum travão ao insulto gratuito que militantes e membros da Assembleia Municipal fazem a quem pensa diferente, lançando “suspeitas sobre a idoneidade e a postura das pessoas”, citando novamente Bruno Aragão. Essa prática ignóbil é bem visível nas redes sociais, afastando da vida pública munícipes que se limitam a dizer o que pensam.

Tinha a expectativa que esta mudança política trouxesse uma nova lufada de participação cívica, incentivando a livre expressão de opinião e o confronto de ideias, aceitando de bom grado a provocação, a ironia e a inquietação. Assim não parece até ao momento, não obstante o oportuno artigo de opinião de Bruno Aragão, o qual poderá ter um efeito muito positivo, por exemplo, no tal senhor que deseja que eu me torne comendador…

O mais importante é que qualquer cidadão tenha espaço para o livre exercício de cidadania, sem complexos e receios, devendo continuar a inquietar a comunidade oliveirense no seu todo para a melhoria do concelho, onde todos cabem e todos podem fazer a sua parte. A VITA, VIDA, ou seja lá que acrónimo for, depende, em primeiro lugar, de uma postura crítica desinteressada e sem mordaças de conveniência.

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