“Sem leitores não há escritores”

Estivemos à conversa com Alfredo Conde na Feira do Livro do Porto. O escritor galego lançou o seu mais recente romance, “O Beato”, pela Lema d’Origem.

Uma entrevista com Alfredo Conde, em jeito de conversa, levou-nos por inúmeros caminhos da literatura, da escrita e do Homem. Tal como no seu novo romance, “O Beato”, traduzido para português e editado pela Lema d’Origem, mergulhamos numa beatitude esotérica, mas humanizada, sem mitos ou divinos que nos façam interpretar os fenómenos da vida numa lógica inalcançável. O complexo é simplificado, não apenas na sua obra, mas na sua forma de estar.

O escritor galego, nascido em 1945 em Allariz, Ourense, é um dos maiores romancistas contemporâneos em língua galega e castelhana. Com uma obra imensa, que vai desde o romance, passando pela poesia, conto e crónica, tem a sua obra traduzida para várias línguas e muitos prémios literários na bagagem. É um cidadão do mundo, tendo navegado por mares em transatlânticos como comandante da marinha mercante, estudou Náutica na Escola Superior da Marinha Civil d’A Corunha e, também, Filosofia e Letras pela Universidade de Santiago de Compostela. Foi professor, deputado no Parlamento da Galiza e conselheiro da cultura do governo galego, mas a sua maior paixão é a literatura e o Homem.

Começámos pelo Ferreira de Castro, também ele um humanista, mas é de Agustina, Pessoa, Saramago e de Camões que reconhece como “verdadeiros monstros literários” da cultura portuguesa, não obstante a influência dos autores russos na sua obra. “Respeito muito o Lobo Antunes, conheci-o há uns anos em Barcelona, e tenho uma profunda admiração por ele”, mas é curioso que é através do português do Brasil que lê mais, dado que a língua é de melhor compreensão para um galego. “Leio muito Jorge Amado e tenho uma tendência natural em me aproximar mais da literatura brasileira do que da portuguesa”, mas é através da história que faz o processo inverso que os historiadores habitualmente fazem, “pois estes buscam os factos que validem a sua orientação académica, que justifiquem a sua forma de pensar. Nós, os escritores que escrevemos romances históricos, fazemos o reverso, vamos descobrindo a história através dos acontecimentos”.

Em tempos de totalitarismos que surgem um pouco por todo o lado, nunca a cultura foi tão importante na actualidade como aliada da tolerância e da aproximação saudável entre os povos. A visão universalista do Mundo não está apenas patente na sua obra, mas no próprio processo de construção de Alfredo Conde, contrariando o imediatismo da informação, do estudo e da própria contemplação. Urge combatermos “a uniformização estética e ética que se dilui em todo o mundo, talvez fruto da globalização ou do neoliberalismo económico selvagem”, dando tempo ao tempo, de certo modo, o tempo necessário para valorizarmos as diferenças. Mas como isto se faz numa altura de literatura pronta a consumir e com o mundo ao alcance de um clique? “Temos de ler”, responde sem hesitações o autor. “A cultura talvez acabará nas mãos de uma elite, tal como sempre aconteceu”, apontando que muito do que se consome como cultura é arbitrário e nem sempre obedece a uma lógica de compreensão e reflexão sobre o Mundo, não deixando, porém, que o seu fácil sorriso denote optimismo e esperança sobre o ser humano.

Acredita que a literatura tem como função permitir conhecermo-nos a nós próprios num processo inacabado, mas cuja persistência é constante e deve ser o foco de qualquer escritor e leitor. Alfredo Conde, o escritor galego que viu o Mundo, continua nessa incessante busca e continuará a escrever para quem o quiser ler. Reconhece a dificuldade do panorama literário actual, sobretudo em Espanha, nem sempre valorizado e com alguns bons escritores a não terem oportunidade para se lançarem nos restritos meios literários, nem sempre fáceis de lidar. “Sem leitores não há escritores”, diz, sem rodeios, numa resposta tão evidente que nos lançou para a questão dos jovens autores que querem publicar, escrever, tocar o mundo com a sua obra. “Não se ensina a escrever, mas escreve-se lendo. Só assim é possível. Lendo muito!”.

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